Um fim de semana no Empordà: roteiro de 2 dias perto de Barcelona

Existe um pedaço da Catalunha que cabe num fim de semana, mas demora uma vida pra explicar. Fica no norte, encostado nos Pirineus e no Mediterrâneo ao mesmo tempo, e tem nome de comarca antiga: Empordà. A duas horas e meia de carro de Barcelona, ele é o tipo de lugar que a gente passa olhando pela janela e tem vontade de parar a cada quinze minutos — pelos vinhedos baixos, pelas oliveiras retorcidas, pelos vilarejos brancos no meio do nada.

Eu e o Nando passamos um fim de semana inteiro no Empordà recentemente, e voltei pra Barcelona com a sensação de quem tinha viajado muito mais longe do que duas horas. Esse post é o roteiro dos dois dias que a gente fez: o vinho, o azeite e o mel da região no primeiro dia, e Cadaqués — o vilarejo branco mais bonito da Costa Brava — no segundo. Sem pressa, sem cobrir tudo, do jeito que a gente gosta de viajar por aqui.

Se você mora em Barcelona (ou em qualquer lugar da Catalunha) e nunca foi, esse post é pra você. Se você está planejando uma viagem maior pela região e quer aproveitar um fim de semana no Empordà como capítulo de uma viagem maior, também serve. A ideia é mostrar como cabe muito em dois dias sem deixar de respirar.


Onde fica o Empordà (e por que ele deveria estar no seu radar)

O Empordà é uma região no extremo nordeste da Catalunha, divida em duas comarcas: o Alt Empordà (alto, ao norte, fronteira com a França) e o Baix Empordà (baixo, ao sul). A maior parte do nosso fim de semana aconteceu no Alt Empordà, com base em Peralada — uma vila pequena que, contra todas as expectativas, guarda um castelo medieval, uma das bibliotecas privadas mais impressionantes da Europa, e uma das bodegas mais premiadas da Espanha.

A região tem uma identidade gastronômica forte (vinho, azeite, mel, peixe da Costa Brava), uma costa que mistura o turismo conhecido — Cadaqués, Roses, Cap de Creus — com vilas de interior quase esquecidas, e uma luz muito particular que Dalí, Picasso, Miró e Duchamp passaram a vida tentando capturar. Essa mistura de “perto de Barcelona, longe do óbvio” foi o que nos atraiu, e foi o que mais surpreendeu.


Onde nos hospedamos: Castell de Vallgornera, em Peralada

A primeira decisão importante de um fim de semana no Empordà é onde dormir, porque ela determina o ritmo dos dois dias. A gente escolheu se hospedar no interior, não na costa — e foi a melhor escolha possível.

O Castell de Vallgornera é uma casa antiga restaurada a dois quilômetros do centro de Peralada. É pequeno, com pouquíssimos quartos, e tem o tipo de silêncio que a gente nem percebia que estava precisando até chegar. O jardim, a piscina, o pátio interno de pedra, as cortinas pesadas que abrem pra uma vista de vinhedos — tudo ali pede pra desacelerar. O café da manhã é feito com produtos da região, e foi um dos rituais favoritos do fim de semana.

Por que se hospedar no interior e não na costa: porque o Empordà mais autêntico está aqui dentro. As vilas medievais, as bodegas, os apiários, os campos de oliveira ficam no interior. Cadaqués, que é o cartão-postal, está a quarenta minutos de carro — perto o suficiente pra fazer bate-volta, longe o suficiente pra te poupar do barulho turístico no fim do dia. Peralada é uma base perfeita.


 

Altea, Espanha: O Que Fazer em Um Dia Neste Vilarejo Mediterrâneo

 

Dia 1: o Empordà de dentro

A ideia do primeiro dia foi conhecer o Empordà pelo que ele faz: o azeite, o vinho, o mel. Três produtos que carregam o sabor exato dessa parte da Catalunha, cada um vindo de famílias e tradições com décadas (no caso do mel) ou séculos (no caso do vinho) de história.

A primeira parada: azeite e a cultura do oleoturismo

A gente começou o dia com uma coisa que eu, sinceramente, não imaginava que fosse tão séria por aqui: o azeite. O Empordà tem uma cultura de oleoturismo — turismo do azeite — que cresce a cada ano. E faz total sentido: essa é terra de oliveira desde os romanos.

Passamos na loja da Oli Fontclara para comprar azeite e levar pra casa, e foi ali que entendi o que torna esse azeite tão particular. Existe uma variedade de oliveira que é praticamente endêmica do Empordà — chama Argudell. É uma azeitona pequena, que dá um azeite mais intenso, herbáceo, com um amargor bonito no final e uma picância que faz tossir um pouquinho. A maior parte do azeite que a gente compra no mercado é feita com uma ou duas variedades padronizadas, espalhadas pelo mundo inteiro. Aqui, eles continuam cultivando uma oliveira que quase ninguém mais cultiva, só porque ela pertence a este lugar.

Aprendi também que azeite bom se prova como vinho: em copinhos azuis (a cor azul esconde a tonalidade do azeite, que não indica qualidade), esquentando o copo na mão pra liberar os aromas, cheirando, e dando um gole pequeno. E a picância na garganta — que parece defeito — é justamente sinal de qualidade. Vem dos polifenóis, os antioxidantes que tornam o azeite tão saudável. Passei a vida achando o contrário.

Existem fincas na região que recebem visita guiada, com cata e passeio pelos olivais centenários. A gente não tinha tempo pra visita completa nesse fim de semana, mas saímos da loja com a lata na mão e a sensação de que existe todo um mundo por trás de uma garrafa de azeite de verdade.


Tour pela bodega Celler Perelada: seis séculos de vinho

A próxima parada foi a poucos minutos dali, e provavelmente foi o ponto mais alto do dia: o Celler Perelada, a bodega histórica da vila. A gente fez o tour guiado completo, com degustação no fim, e eu recomendo essa experiência sem reservas pra quem está planejando um fim de semana no Empordà.

A tradição vinícola de Peralada vem do século 14, quando os monges carmelitas do convento da vila começaram a fazer vinho com as uvas da região. Em 1923, o industrial Miquel Mateu Pla comprou o castelo e revitalizou a produção. Mas a bodega que a gente visitou é nova: foi inaugurada em 2022, com um investimento de cerca de 40 milhões de euros, e foi projetada pelo estúdio RCR Arquitectes — três arquitetos cataláns de Olot que ganharam o Prêmio Pritzker em 2017 (o “Nobel da arquitetura”). Foram os primeiros (e até hoje únicos) cataláns a ganhar esse prêmio.

O prédio é uma obra de arte por si só. Por fora, parece uma dobra do terreno — baixo, integrado, quase escondido. Por dentro, é fresco, silencioso, com a luz natural entrando devagar e os vinhedos visíveis pelas janelas. É a primeira bodega da Europa com certificação LEED Gold de sustentabilidade.

O guia foi um amor — explicou por que o Empordà é uma região vinícola tão particular, mesmo sendo bem menos famosa que Rioja, Priorat ou Penedès. Tem a ver com a variedade enorme de solos num espaço pequeno, e com a tramontana, aquele vento norte característico daqui, que mantém as uvas secas e saudáveis e concentra o sabor.

A visita terminou como tinha que terminar: numa degustação de três vinhos, acompanhada de pão e queijo da região, com o vinhedo do lado de fora da janela. Foi nesse momento que esse fim de semana fez sentido pra mim. A gente não veio só ver lugares. Veio provar de onde eles vêm.

💡 Dica prática: o tour é com reserva antecipada. Reservei pelo site oficial (perelada.com), mas dá pra reservar também por 972 538 001 ou [email protected]. Recomendo agendar para a tarde, quando a luz nos vinhedos fica linda.

Celler Perelada

Celler Perelada


Mel artesanal: Abellaires Empordanesos, em Garriguella

A poucos minutos de Peralada tem uma vila chamada Garriguella. E em Garriguella tem uma família que faz mel desde 1983. Eles se chamam Abellaires Empordanesos, que em catalão quer dizer mais ou menos “os abelheiros do Empordà”.

A gente fez uma parada rápida só pra comprar mel — porque o objetivo do dia já estava bem cheio. Mas vale dizer que eles oferecem uma experiência completa chamada “apicultor por um dia”: você veste o traje, vai até as colmeias na Serra de l’Albera (a fronteira natural com a França), abre uma colmeia, e termina com uma cata de três méis diferentes. Fica de sugestão pra próxima vez.

O que a gente trouxe foi alguns potes do mel que eles produzem na Serra de l’Albera — o último trecho dos Pirineus antes do mar. As flores que crescem ali (a vegetação de fronteira, com plantas que não existem em qualquer lugar) fazem um mel leve, perfumado, que não tem nada a ver com o mel padronizado de mercado. Saí dali já sabendo qual pote ia abrir no café da manhã do dia seguinte.


Jantar no Cal Sagristà: pedra antiga e o carrinho de doces

Pra fechar o primeiro dia, a gente jantou no Cal Sagristà, no centro histórico de Peralada, pertinho das antigas muralhas medievais. O restaurante existe desde 1986 e o nome vem do que o lugar era antes: a casa do sacristão da igreja do convento carmelita. As paredes de pedra ainda são as originais.

A cozinha é catalã tradicional, com leves toques modernos. Pedimos uns clássicos da casa pra dividir — entradas, peixe, carne — com vinho do Empordà (porque a gente estava aqui pra isso). Mas o melhor veio no fim: o famoso carrinho de sobremesas, que vem até a mesa cheio de doces caseiros. É uma instituição local. A gente terminou o jantar tarde, voltou pro hotel a pé pelas ruas vazias da vila, com mais estrelas no céu do que a gente lembrava de ver perto de Barcelona.

Primeiro dia fechado. E ainda faltava metade.


Dia 2: rumo ao mar, em direção a Cadaqués

Se o primeiro dia foi o Empordà de dentro, o segundo foi o Empordà de fora. A costa, a luz branca, o mar. E uma única estrada de curvas, descendo a serra, que entrega Cadaqués como quem entrega um presente embrulhado lentamente.

Cadaqués: o vilarejo branco que enfeitiça

A estrada de Peralada a Cadaqués são quarenta minutos. Mas a última parte é só curva — a serra de Rodes desce de uma vez até o mar, num daqueles trechos de estrada que viram piada interna do casal (“aguenta firme, é mais um pouco”). E depois da última curva, a baía aparece de cima: branca, calma, com os barcos parados na água. Eu mandei meu parceiro parar o carro no primeiro mirante. Vale o desvio. Sempre.

Cadaqués tem uma característica geográfica que define tudo o que ela é: uma única estrada de entrada, que é a mesma de saída. Foi isso que preservou o vilarejo do turismo de massa que tomou conta de tanto lugar da Costa Brava. Em agosto, está cheia. Em outubro, está quase só dos locais. A gente foi numa estação intermediária e encontrou o equilíbrio: viva, mas respirável.

Caminhando pelo casco antigo

Estacionamos perto do paseo e subimos pelo casco antigo a pé. As ruas são estreitas, brancas, com portas e janelas em cores vivas — verde, azul, terracota, vinho. Os vasos com buganvílias estouram nas fachadas. Os gatos dormem nas soleiras como se cada um fosse o dono daquele degrau.

E tem um detalhe que não tem em quase nenhum outro lugar do Mediterrâneo: a calçada típica de Cadaqués, chamada rastell. São pedras de ardósia fincadas na vertical no chão, formando uma textura que escorre a água da chuva e impede que se acumule. É bonito, é prático, é só daqui. Vale prestar atenção no chão.

Cadaqués sempre atraiu gente que via o mundo de um jeito diferente. Picasso veio em 1910. Miró veio depois. Marcel Duchamp passou várias temporadas. García Márquez ambientou um conto inteiro aqui, chamado Tramontana, sobre o vento norte que enlouquece os forasteiros. E Salvador Dalí, claro, viveu boa parte da vida aqui — dizia que esse era o vilarejo mais bonito do mundo. Tem uma estátua dele em bronze no paseo marítim, olhando o mar, com aquele bigode emblemático. A gente parou pra olhar.

A Igreja de Santa María e a vista do alto

Subimos até a Igreja de Santa María, que fica no ponto mais alto do casco antigo. A primeira igreja desse local foi destruída por piratas no século 16 — Cadaqués foi saqueada várias vezes antes da Espanha conseguir defender essa parte da costa. A igreja atual começou a ser construída em 1543, terminada em 1642, e tem por dentro um retábulo barroco dourado lindo e um dos órgãos mais antigos da Catalunha, de 1689.

Mas o que vale mesmo a subida é a vista do alto. Dali dá pra ver os telhados brancos descendo até a baía, os barcos parados na água, e a luz branca tão particular de Cadaqués. Foi de uma vista assim que Dalí disse a sua famosa frase. Daqui de cima, eu entendi o que ele estava vendo.

Sorvete obrigatório no paseo

Descemos até o paseo marítim e fizemos o que se tem que fazer num dia de sol na Costa Brava: paramos numa sorveteria, escolhemos sabores estranhos pra dividir, e ficamos sentados num banco vendo os barcos. O sorvete derretia mais rápido que a vontade de ir embora. Eu acho que se eu tivesse que escolher um único momento de toda essa viagem, seria esse. O paseo, dois sorvetes, e a sensação de que o mundo todo podia esperar um pouco.


Considerações finais: planejando seu próprio fim de semana no Empordà

Saímos de Cadaqués no fim da tarde, pegamos a estrada de volta e estávamos em Barcelona em pouco mais de duas horas e meia. Dois dias. Foi o suficiente — e foi exatamente isso que tornou a viagem boa. Quando você sabe que tem só um fim de semana, a pressão de “aproveitar tudo” desaparece. Não dá pra ver tudo. Então a gente só vê o que quer. Toma café da manhã sem hora pra acabar, para o carro pra olhar uma vista, volta pra casa antes de cansar do lugar — com vontade de voltar.

Algumas dicas finais pra quem está planejando o próprio fim de semana no Empordà:

Quando ir

A melhor época é o outono (setembro a novembro) ou a primavera (abril a junho). No verão Cadaqués lota e o calor pesa; no inverno alguns produtores fecham as visitas, mas o silêncio das vilas é bonito (se você não se importa com vento). Outubro foi a estação que escolhemos e recomendo sem reservas: a luz dourada, os preços razoáveis, as ruas respiráveis.

O que reservar com antecedência

  • O tour da bodega Celler Perelada (com semanas de antecedência se for fim de semana de alta temporada)
  • O jantar no Cal Sagristà (a mesa enche rápido, principalmente nos sábados)
  • O hotel (Castell de Vallgornera tem poucos quartos e enche)

A loja de azeite (Oli Fontclara) e a loja de mel (Abellaires) não precisam de reserva pra compra, mas vale confirmar o horário pelos sites — algumas fecham no meio do dia ou cedo no sábado.

Como chegar ao Empordà saindo de Barcelona

A maneira mais prática é de carro. São cerca de duas horas e meia até Peralada pela AP-7 (autopista). Dá pra ir de trem até Figueres e alugar carro lá, mas a flexibilidade de ter carro próprio compensa muito num fim de semana com várias paradas. Se você não tem carro, considere alugar — sem ele, esse roteiro fica muito limitado.

Por fim

Tem viagem que muda a gente porque é grande, longa, diferente. E tem viagem que muda a gente porque é exatamente do tamanho certo. Esse fim de semana no Empordà foi do segundo tipo. Voltamos com pouca coisa material — algumas latas de azeite, uns potes de mel, uma garrafa de vinho da bodega, postais. Mas voltamos com aquela sensação rara de quem reparou em tudo, sem correr atrás de nada.

Se você está em Barcelona e nunca foi, fica como sugestão real. Salva esse post pra quando o próximo fim de semana livre aparecer. E quando voltar, conta pra mim como foi — lugar bonito a gente divide.

Até a próxima volta.

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